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Aposta em trens suspensos e veículos leves sobre trilhos (VLTs) para solucionar desafios de transporte das capitais do país, como São Paulo, com maior número de projetos e investimentos, aquece o setor e renova as oportunidades de negócios de empresas brasileiras e canadenses.
No Brasil, a maior parte da população depende de transporte público para se locomover. Segundo pesquisa recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 44,4% dos brasileiros utilizam serviços públicos, em vez de carros (23,8%) e motos (12,6%). Na região Sudeste, a dependência é ainda maior (50,7%), o que se reflete nas sucessivas tentativas de prefeitos e governadores de encontrar alternativas para uma melhor mobilidade nos centros urbanos. São Paulo, com aproximadamente um carro para cada dois habitantes, rede metroviária limitada e uma frota de ônibus reduzida para o número de passageiros diários, enfrenta os maiores desafios. Parte da solução, segundo especialistas consultados, pode estar nos trilhos. A ampliação de linhas de metrô e trens urbanos e a adoção de veículos leves sobre trilhos (VLTs) e monotrilhos (trens suspensos em via exclusiva) são algumas das medidas adotadas por grandes cidades do país, a exemplo de diversas regiões do mundo, o que renova as oportunidades de negócios para empresas brasileiras e canadenses.
Atenta a esta tendência, a Bombardier intensifica sua presença no setor, com a participação em novas obras. Especializada em tecnologia ferroviária, entre outras áreas de atuação, a companhia venceu, em 2010, uma licitação da prefeitura paulistana, em consórcio formado pelas construtoras Queiroz Galvão e OAS, para fabricar trens monotrilhos (sistema Innovia Monorail 300) para a linha Expresso Tiradentes (antigo Fura-Fila), que ligará a Vila Prudente, na região central, ao bairro Cidade Tiradentes, na Zona Leste. O projeto, de 24 quilômetros de extensão (com 17 estações), prevê o fornecimento de 392 carros, instalados em 56 trens, controlados não por condutores, mas por um sistema automatizado – a primeira fase deve entrar em operação em 2014. A fabricação dos veículos começará no Canadá e, futuramente, será transferida para a unidade da empresa em Hortolândia, no interior do Estado.
“Com a licitação, faremos a transferência de tecnologia necessária para fabricar mais de 70% dos componentes no Brasil. Com esta troca de experiência, o país poderá se tornar um centro de excelência na fabricação de transporte ferroviário de alta tecnologia”, afirma Luís Ramos, diretor de Comunicação e Relações Institucionais. Para atender à demanda, o grupo ampliará a unidade de Hortolândia, com a instalação de um centro de tecnologia para a montagem deste tipo de veículo, além de ter planos de triplicar o número de funcionários. Nos últimos anos, a empresa assinou contratos para a modernização e sinalização do metrô de Salvador (Bahia), a fabricação de equipamentos de vias nas linhas 2 e 5 do metrô paulistano e a sinalização da Ferronorte, que liga Cuiabá (MT) a Uberlândia (MG), Santa Fé do Sul (SP), Porto Velho (RO) e Santarém (PA), entre outros projetos. No Canadá, onde também se aposta nos VLTs, o pedido mais recente é o de fornecimento de 204 veículos para Toronto.
Alta da produção – Para Francisco Petrini, diretor executivo do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários (Simefre), o planejamento da Bombardier favorece a cadeia produtiva nacional. “A empresa canadense terá de acionar seus fornecedores, como a alemã Knorr-Bremse, a Faiveley, a AmstedMaxion, a MWL e a Hewitt, todos com fábricas aqui”, destaca. Já nas linhas de produção, ocorre o chamado “after marketing”, segundo Manoel Caramuru, consultor de Negócios Ferroviários da SKF, fornecedora de rolamentos para a multinacional do Canadá.
“A grande vantagem de companhias estrangeiras ganharem licitações, como a Bombardier, é o ‘after marketing’. Em um primeiro momento, os fornecedores vão importar o material solicitado, mas depois terão de fazer a reposição, a manutenção”, diz.
Com esta movimentação no mercado, os VLTs e monotrilhos começam a receber maior atenção por parte de planejadores públicos, o que é visto como um fator favorável para o desenvolvimento urbano. “A escolha das alternativas de transporte influencia diretamente no crescimento das cidades e no perfil de sua expansão, além dos impactos diretos na vida da população e no meio ambiente, com reflexos na poluição, no ruído e no consumo de energia”, explica Peter Alouche, consultor de Transportes da Trends Tecnologia. Segundo ele, a lista de VLTs em operação ou previstos para serem instalados no mundo não para de crescer (veja boxe na página 44). No Brasil, São Paulo concentra o maior número de linhas a serem lançadas, com cerca de 60 quilômetros de extensão. Rio de Janeiro, Manaus e outras grandes cidades também devem adotar os modelos, prevendo o crescimento do fluxo de usuários devido à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016.
“A implantação de novos transportes de média capacidade, como os VLTs e monotrilhos, representa um grande avanço na organização das metrópoles brasileiras. É flagrante o caos total no trânsito das grandes cidades. Falta mobilidade urbana e precisamos agir rapidamente, porque poderemos ter problemas sérios em poucos anos”, expõe Vicente Abate, presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer).
“Nossa rede tem uma densidade muito alta. Para se ter uma ideia das novas oportunidades, o governo paulista prevê expandir a rede sobre trilhos, com qualidade de metrô, para 420 quilômetros até 2014”, completa. A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) anunciou, entre outros projetos, a Linha Ouro de monotrilho, que ligará o Aeroporto de Congonhas ao Morumbi, com investimentos de cerca de R$ 1 bilhão. Por sua vez, a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) quer instalar um VLT na Baixada Santista e a SPTrans desenvolve o projeto de implantação do meio de trasporte no M’Boi Mirim, na Zona Sul da capital paulista, que está em fase inicial.
Ações integradas – Laurindo Junqueira, superintendente de Planejamento de Transporte da SPTrans, conta que representantes do órgão visitaram, recentemente, VLTs e monotrilhos em outras cidades do mundo para avaliar as vantagens e desvantagens do modelo. “Cada meio de transporte tem seu nicho próprio e todos têm de funcionar de forma integrada e complementar. Os corredores de ônibus, por exemplo, costumam exigir muito espaço, o que é quase impossível de se conseguir em cidades grandes já consolidadas, a não ser com enormes custos sociais de desapropriação”, explica. Junqueira acrescenta que os veículos sobre trilhos permitem maior capacidade de transporte, conforto e confiabilidade, diferenciais essenciais para o funcionamento das capitais.
A diversidade de fabricantes e fornecedores, associada ao intercâmbio de conhecimento e tecnologia, será fundamental para a evolução do setor nos próximos anos. “Com a atuação da Bombardier, outras empresas canadenses devem se interessar em investir nos próximos anos.
O Brasil está muito atrasado em relação aos transportes ferroviários, principalmente no que se refere aos trens de alta velocidade, cuja licitação para o trecho Campinas-Rio de Janeiro, via São Paulo, está prevista para abril”, afirma Abate.
As expectativas de investimentos em trens de passageiros são de R$ 85 bilhões até 2016, excluídos os R$ 30 bilhões previstos para o de alta velocidade. “Existe uma tendência de trens regionais em São Paulo, que pode abrir oportunidades para empresas nacionais e estrangeiras”, destaca Julio Nakano, líder da unidade de Negócios de Transporte da consultoria canadense Hatch.
A companhia identificou o potencial da área e aumentou sua participação no mercado, com estudos de viabilidade, elaboração de projetos e orçamentos detalhados de engenharia e terraplenagem. Segundo Nakano, há diversas licitações em tramitação, como as de ampliação das linhas 2, 6 e 15 do Metrô. “Disputamos a licitação da linha 5, que ligará Adolfo Pinheiro à Chácara Klabin (na Vila Mariana), via Ibirapuera e Moema, devendo movimentar cerca de R$ 3 bilhões, e participamos de projetos de desenvolvimento do setor no Rio de Janeiro”, conclui.
Ampliação do metrô e monotrilho são alternativas para a cidade de São Paulo
Junqueira, da SPTrans: maior capacidade de transporte e confiança
Cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, como Manaus (AM), desenvolvem projetos
Abate, da Abifer: oportunidades de negócios para modelos de média capacidade em São Paulo
Vancouver é exemplo de cidade canadense com trens suspensos
Alouche, da Trends Tecnologia: VLTs e monotrilhos como benefícios
Previsão de especialistas é de aquecimento da produção nacional
Solução global
Na busca por soluções viáveis em transporte e mobilidade, diversas cidades do mundo têm adotado os VLTs como meios complementares a seus sistemas urbanos.O número de veículos em projeto ou operação na Rússia, segundo Peter Alouche, consultor de Transportes da Trends Tecnologia, soma 68 unidades. Na Europa, onde as cidades respeitam regras restritas de controle da qualidade do ar, os sistemas VLTs são uma tentativa de melhora na locomoção urbana e de redução da poluição. A Alemanha conta com 66 carros em operação ou em projeto, seguida da França (18), Itália (16), Polônia (15), Reino Unido e Romênia (13), Espanha e Suíça (11), Áustria e República Tcheca (oito), Holanda (seis) e Hungria (cinco).
Fonte: Revista Câmara de Comércio Brasil-Canadá – Edição 29
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